Origens da capoeira no Recife Origens da capoeira no Recife
As gangues do Recife por Gil Cavalcanti © 2008 (Mestre Gil Velho) No Recife, os grupos de capoeira vão mostrar uma organização semelhante, porém... Origens da capoeira no Recife

As gangues do Recife
por Gil Cavalcanti © 2008 (Mestre Gil Velho)

No Recife, os grupos de capoeira vão mostrar uma organização semelhante, porém vão estar mais atrelados às manifestações rítmicas. As bandas militares, ao que tudo indica, foram às primeiras organizações rítmicas absorvidas pelos espaços iniciais de sócio-fronteiras da capoeira. A pesar dos registros, sobre a organização sócio cultural destas gangues da cidade de Recife, serem muito menores do que os existentes cidade carioca.

A partir das Bandas do 4º Batalhão de Artilharia ou Banha Cheirosa; e o Hespanha ou Cabeças Secas, do Corpo da Guarda Nacional; os grupos criam duas unidades sócio-fronteiriças:

– o partido do 4º ou Banha cheirosa;
– e o partido Hespanha ou Cabeças Secas.

No calor desses desfiles e do repertório em uso pelas bandas militares sediadas no Recife, na segunda metade do século XIX, foi sendo gerado o embrião da marcha-carnavalesca pernambucana, que veio dar origem ao nosso frevo, e, de sua forma coreográfica única, o passo, originário da interpretações que os indivíduos capoeiras faziam de suas leituras vivenciais.

A partir desta perspectiva identitária territorial a capoeira pernambucana travou uma verdadeira batalha através de suas pernadas, sua ginga solta, aliadas à bengala, ao porrete, à navalha, à faca etc. Sendo o frevo, dos espaços rítmicos, o último de suas brincadeiras. Ritmo proveniente destas estruturas de bandas, e o passo da aguerrida comunicação dos capoeiras.

A influência dos desfiles militares, corporações profissionais e procissões religiosas se tornam patente nos cortejos dos clubes carnavalescos (clubes de frevo), desde a disposição das bandas de música, estandartes, símbolos, luxo, heráldica dos distintivos e até cordões de morcegos, lanceiros e mascarados. Lembra F. A. Pereira da Costa (1851-1923), no seu Folk-Lore Pernambucano (1908), a importância do capoeira em tais desfiles, particularmente nos idos de 1856, quando existiam no Recife as bandas musicais do 4º Batalhão de Artilharia, chamado popularmente de Quarto, e a do Corpo da Guarda Nacional, esta conhecida por Espanha por ser seu maestro o espanhol Pedro Francisco Garrido.

“O nosso capoeira é antes o moleque de frente de música, em marcha, armado de cacete, e a desafiar os do partido contrário, que aos vivas de uns, e morras de outros, rompe em hostilidade e trava lutas, de que não raro resultam ferimentos, e até mesmo casos fatais.”

Capoeiragem no Século XIX

Pelas descrições de Pereira da Costa, que infelizmente não chegaram até nós musicadas, chega-se a crer que o frevo (música) e o passo (dança) tiveram nos desfiles das bandas de música do Recife, na segunda metade do século XIX, o seu embrião.
“Levavam os capoeiras partidários de música o seu entusiasmo por certas peças, a ponto de comporem versos apropriados ao canto de alguns passos dobrados… E estes outros, cantados no trio de um dobrado do 4º Batalhão de Artilharia, a quem denominavam de Banha Cheirosa, dobrado que levava ao delírio os partidários do Quarto, principalmente quando chegava a parte de uma pancada em falso dada pelo bombo no trio da peça.

Acompanhando o desfile das bandas musicais do Recife desde os primeiros anos da segunda metade do século XIX, o nosso capoeira era, no dizer de Mário Sette, figura obrigatória à frente do conjunto “gingando, piruteando, manobrando cacetes e exibindo navalhas. Faziam passos complicados, dirigiam pilhérias, soltavam assobios agudíssimos, iam de provocação em provocação até que o rolo explodia correndo sangue e ficando os defuntos na rua”.

Beaurepaire Rohan, no seu “Glossário Brasileiro”, publicado na Gazeta Literária, nº 19, Rio de Janeiro, 11 de outubro de 1884, revela que o vocábulo serve para definir “toda a sorte de desordeiro pertencente à ralé do povo. São estes perigosíssimos, por isso que, armados de instrumentos perfurantes, matam a qualquer pessoa inofensiva, só pelo prazer de matar”. No Recife, segundo Pereira da Costa em seu Folk-Lore Pernambucano (1908);

“o nosso capoeira é antes o moleque de frente de música em marcha, armado de cacete, e a desafiar os do partido contrário, que aos vivas de uns, e morras de outros, rompe em hostilidade e trava lutas, de que não raro resultam ferimentos, e até mesmo casos fatais!…”.

Pelas descrições de Pereira da Costa, que infelizmente não chegaram até nós musicadas, chega-se a crer que o frevo (música) e o passo (dança) tiveram nos desfiles das bandas de música do Recife, na segunda metade do século XIX, o seu embrião.

“Levavam os capoeiras partidários de música o seu entusiasmo por certas peças, a ponto de comporem versos apropriados ao canto de alguns passos dobrados… E estes outros, cantados no trio de um dobrado do 4º Batalhão de Artilharia, a quem denominavam de Banha Cheirosa, dobrado que levava ao delírio os partidários do Quarto, principalmente quando chegava a parte de uma pancada em falso dada pelo bombo no trio da peça.

Acompanhando o desfile das bandas musicais do Recife desde os primeiros anos da segunda metade do século XIX, o nosso capoeira era, no dizer de Mário Sette, figura obrigatória à frente do conjunto “gingando, piruteando, manobrando cacetes e exibindo navalhas. Faziam passos complicados, dirigiam pilhérias, soltavam assobios agudíssimos, iam de provocação em provocação até que o rolo explodia correndo sangue e ficando os defuntos na rua”.

Beaurepaire Rohan, no seu “Glossário Brasileiro”, publicado na Gazeta Literária, nº 19, Rio de Janeiro, 11 de outubro de 1884, revela que o vocábulo serve para definir “toda a sorte de desordeiro pertencente à ralé do povo. São estes perigosíssimos, por isso que, armados de instrumentos perfurantes, matam a qualquer pessoa inofensiva, só pelo prazer de matar”.

No Recife, segundo Pereira da Costa em seu Folk-Lore Pernambucano (1908);
“o nosso capoeira é antes o moleque de frente de música em marcha, armado de cacete, e a desafiar os do partido contrário, que aos vivas de uns, e morras de outros, rompe em hostilidade e trava lutas, de que não raro resultam ferimentos, e até mesmo casos fatais!…”.

Pelo depoimento de Pereira da Costa é nos desfiles das bandas de música do Recife que os capoeiras criaram o ambiente necessário ao exercício e à prática da capoeiragem. Ao contrário da estrutura da capoeira de hoje, onde os capoeiras se reuniam em torno de um conjunto de berimbaus, no Recife eles tiveram como o seu habitat no desfile das bandas militares, do 4º Batalhão de Artilharia e do Corpo da Guarda Nacional; esta última uma organização paramilitar, criada por Lei Imperial de 18 de agosto de 1831, com ramificações em todo o Brasil. Ao primeiro conjunto apelidaram de “O Quarto e ao segundo de Espanha”, por ser o seu mestre o espanhol Pedro Francisco Garrido. Nos idos de 1856, segundo a mesma fonte, iniciou-se uma rivalidade entre os capoeiras, aficionados dos desfiles daquelas bandas musicais, que armados de cacetes e facas de ponta passaram a se desafiar:

“Viva o Quarto!
Morra Espanha!
Cabeça seca
É quem apanha!”

Apelidava-se de cabeça seca ao elemento escravo, a mais vil das classes sociais de então, acrescentando Pereira da Costa esta informação deveras preciosa para o entendimento das raízes muito distantes do nosso frevo e, por conseguinte, da sua coreografia única e contagiante, o passo: “Levavam os capoeiras partidários de música o seu entusiasmo por certas peças, a ponto de comporem versos apropriados ao canto de alguns passos dobrados (grifo nosso). E estes outros, cantados no trio de um dobrado do 4º Batalhão de Artilharia, a quem denominavam de Banha Cheirosa, dobrado que levava ao delírio os partidários do Quarto, principalmente quando chegava a parte de uma pancada em falso dada pelo bombo no trio da peça”.

O Diario de Pernambuco, em de 5 de maio 1860, chama a atenção da polícia para os bandos de capoeiras que acompanhavam os desfiles das bandas de música. O mesmo jornal, em sua edição de 15 de dezembro de 1864, transcreve ofício enviado pelo coronel comandante do Exército, sobre o mesmo tema:
“Pelo reprovado costume adotado pelos escravos nesta cidade, de acompanharem as músicas militares, dando a uma ou a outra vivas e morras, apareceram desagradáveis conflitos e isto há muito. Ontem, o partidista de uma dessas músicas — Melquíades — preto, escravo, deu, no meio dos gritos de um e outro lado, uma facada no pardo, também escravo, Elias, dizendo-se ser o ofensor partidista de uma das músicas e ofensor de outra.”

Trazendo nas mãos um grosso quirí (bastão de madeira duríssima), ou uma bengala de quina, os nossos capoeiras eram, no dizer de Fernando Pio, in Meu Recife de outrora (1969), “mestres em todos os passos, o corpo inteiro valia como arma ofensiva e defensiva, qualquer dos membros tendo sua atuação definida: com a mão jogavam a tapona, com a perna a trave, o calço, com os pés a rasteira e o temido rabo de arraia”.E seguiam-se os desafios cantados, ao som do dobrado executado pela banda de música

“Não venha!
Chapéu de lenha
partiu
caiu
morreu
fedeu!”

acentuando-se quando da execução do dobrado Banha Cheirosa que levava os capoeiras ao delírio:

Quem quiser Comprar banha cheirosa, Vá na casa Do Doutor Feitosa
Quem quiser Comprar banha de cheiro Vá na casa Do Doutor Teixeira
Banha cheirosa Para o cabelo } bis. Banha de cheiro Prô corpo inteiro

No calor desses desfiles e do repertório em uso pelas bandas militares, sediadas no Recife na segunda metade do século XIX, foi sendo gerado o embrião da marcha-carnavalesca pernambucana. Esta, por sua vez, veio dar origem ao nosso frevo, e, de sua forma coreográfica única, o passo, originário da comunicação gestual da capoeira. Desta forma, estes registros mostram claramente a capoeira como um dos atores de construção do contexto sócio cultural Pernambucano do século XIX. A capoeira, deste período, é um movimento de perspectiva identitária e territorial, um grupo de personalidade sócio cultural pernambucana.

Nos primeiros anos do século XX, as rivalidades entre às agremiações carnavalescas vieram preocupar as autoridades policiais e responsáveis pelas comissões organizadoras dos carnavais de rua. Por muitas décadas tal preocupação moveu o espírito do carnavalesco pernambucano, preocupado com a segurança dos que dela participavam. Um encontro dos aficionados de um clube com os seguidores do seu rival, era motivo de rixa, pancadaria, tudo no melhor estilo dos tempos em que se digladiavam nas ruas os partidários das bandas rivais, Quarto e Espanha, que veio a servir de embrião ao próprio frevo.

Esses encontros transformavam às ruas em verdadeiros campos de escaramuças e, como conseqüências, enchiam-se de feridos e até mortos, dando trabalho à polícia e serviço extra para os padioleiros encarregados do transporte.Tais conflitos vieram ressuscitar a figura do capoeira. Tal prática era tipificada como crime pelo Código Penal do Império e pelo Código Penal de 1890, tratando, este último, em seu capítulo XIII “Dos vadios e capoeiras”, sendo seus infratores condenados a cumprir penas no presídio da ilha de Fernando de Noronha (Notícias de Fernando de Noronha, 1890).

Gil Cavalcanti, o Mestre Gil Velho, geógrafo, é coordenador do Projeto Memorial da Capoeira Pernambucana, do Programa Capoeira Viva do Ministério da Cultura, 2008

Ricardo Nascimento

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