por Gil Cavalcanti © 2008 (Mestre Gil Velho) A capoeira Pernambucana do séc. XIX desaparece, como a carioca das Maltas, com o advento da...


por Gil Cavalcanti © 2008 (Mestre Gil Velho)

A capoeira Pernambucana do séc. XIX desaparece, como a carioca das Maltas, com o advento da República, ou seja, na última década dos 1800. Traços de sua personalidade são registrados no período da formação das bandas militares(por volta de 1840) e em diversas manifestações sócios culturais, como procissões, pastoris, no   carnaval (nos enfrentamentos entre bandas ou blocos) e outras, como vimos acima. E a partir disto não se vê mais falar de suas gangues territorializando no Recife.

Apesar de não existir uma documentação farta sobre a capoeira em Pernambuco, como os registros existentes no Rio de Janeiro são possíveis fazer uma leitura perceptiva, sobre esta realidade, quando a interpretação, que é feita, tem como base a contextualização do ambiente sócio cultural sobre atores participativos, deste contexto, que não são o objeto foco da pesquisa, mas, por estarem em interação na construção do mesmo, dá visibilidade e, por conseguinte,  registro de participação ao ator foco do estudo. No caso das gangues de Recife do século XIX, são as pesquisas sobre o frevo e sua construção neste contexto que melhor contextualiza sua existência.

Como o texto de F. A. Pereira da Costa (1851-1923), no seu Folk-Lore Pernambucano (1908);

A influência dos desfiles militares, corporações profissionais e procissões religiosas se tornam patente nos cortejos dos clubes carnavalescos (clubes de frevo), desde a disposição das bandas de música, estandartes, símbolos, luxo, heráldica dos distintivos e até cordões de morcegos, lanceiros e mascarados. A importância do capoeira em tais desfiles, particularmente nos idos de 1856, quando existiam no Recife as bandas musicais do 4º Batalhão de Artilharia, chamado popularmente de Quarto, e a do Corpo da Guarda Nacional, esta conhecida por Espanha por ser seu maestro o espanhol Pedro Francisco Garrido.  

O nosso capoeira é antes o moleque de frente de música, em marcha, armado de cacete, e a desafiar os do partido contrário, que aos vivas de uns, e morras de outros, rompe em hostilidade e trava lutas, de que não raro resultam ferimentos, e até mesmo casos fatais!

A capoeira neste período se constituiu um ator de construção do contexto pernambucano, pois juntos as demais manifestações sócios culturais (bandas militares, procissões, clubes carnavalescos etc.), personalizavam este contexto e em simultâneo criavam no tecido urbano da cidade do Recife uma malha reativa composta por nichos de sócio fronteira; unidades espaciais de perspectiva identitária e territorial.  Estas unidades são construídas por sua vez pela perspectiva sensorial corporal do individuo (identidade) sobre seu espaço vivencial (território). Desta forma é a unicidade das percepções dos indivíduos que vão caracterizar o território, seu espaço vivencial e o seu limite é demarcado pela sustentabilidade sócio cultural do grupo; a sócio fronteira.

Nos anos 70 do séc. XX, ela retorna, mas aparece despida de sua personalidade sócio cultural pernambucano. Surge, no Recife, a capoeira esportiva e vem proveniente do Rio de Janeiro através de um adolescente chamado João Ferreira Mulatinho.  Mulatinho, pernambucano, que em 1970 vai para o Rio de Janeiro, acompanhando a família que se muda por motivo de trabalho do pai. No Rio, descobre a capoeira através do Grupo Senzala e entra em contato direto com o grande espaço de informação da capoeira, daquele momento. Mulatinho, com seu perfil esportivo de disciplina marcial, se encaixa perfeitamente no discurso da capoeira de resultado da escola Senzala, que surge, em um período, de convivência de discursos de perspectiva libertária (movimento da contra cultura, movimento ripe, movimentos de guerrilhas de esquerda) com os conceitos ditatoriais imposto pelo processo de ditaduras militares de direita, que varre as Américas apoiadas pelos EUA; ingredientes básicos da massificação da capoeira. Desta forma, Pernambuco como o restante do Brasil, absorve a informação proveniente do eixo Rio/São Paulo e implanta uma proposta metodizada e recheada de ritmos exógenos ao seu contexto sócio cultural.

Ricardo Nascimento

No comments so far.

Be first to leave comment below.

Your email address will not be published. Required fields are marked *