CABEÇAS-DE-GATO Algumas vezes nos vêm à memória velhas lembranças que, estimuladas por situações corriqueiras, acabam criando condições favoráveis a certos empreendimentos antes não imaginados, ou talvez, adormecidos...

CABEÇAS-DE-GATO

Algumas vezes nos vêm à memória velhas lembranças que, estimuladas por situações corriqueiras, acabam criando condições favoráveis a certos empreendimentos antes não imaginados, ou talvez, adormecidos e embalados pelo desinteresse ou medo. Assim foi o que ocorreu a partir de algumas leituras de O Cortiço, de Aluísio de Azevedo.

Entre as situações e diferentes personagens que compõem o universo criado pelo escritor, chamaram a atenção Firmo, um capoeira ladino, seu camarada Porfiro e, como situação exemplar, o confronto entre os carapicus e os cabeças-de-gato. Embora nem os personagens citados nem a circunstância lembrada sejam fundamentais no desenrolar da trama do romance, o autor estabeleceu entre eles uma relação significativa para a inserção da ficção na realidade histórica ali retratada: o final do século XIX no Rio de Janeiro.

Carapicus e cabeças-de-gato, a princípio, levaram à identificação com as maltas de capoeiras e, em certo sentido, com as duas grandes nações – nagoas e guaiamus – que congregavam maltas de capoeiras na capital. Firmo, em particular, levou à compreensãonda figura modelar de capoeira: ágil, esperto, “maneiroso” , mas, ao mesmo tempo, sonhando com um emprego público, após ter prestado tantos serviços a políticos. A partir dessas constatações, as velhas lembranças começaram lentamente a adquirir consistência.

Por que não estudar a capoeiragem no Rio de Janeiro? Aos poucos, o impulso inicial, ambicioso e bastante genérico, foi adquirindo proporções mais modestas e limitadas. Em vez de uma abordagem envolvendo a trajetória da capoeiragem do Rio de Janeiro, ao longo do século XIX, foi amadurecendo a idéia da análise de um determinado momento da organização da capoeiragem na capital federal. Esse momento, logo caracterizado como a “morte” da capoeiragem, rendeu, quase de imediato, um pequeno estudo (DIAS, Revista do Brasil, 1985). Nele, foram mostrados, em linhas gerais, alguns fatores que levaram as autoridades do governo provisório da República a desfechar violenta campanha contra as maltas de capoeiras, no Rio de Janeiro.

A partir da compreensão de que o estudo contido naquele artigo possuía algumas sementes favoráveis à ampliação e aprofundamento da questão da liquidação da capoeiragem, enquanto prática organizada no Rio de Janeiro, passamos por momentos de fértil imaginação.

Antes mesmo do amadurecimento da possibilidade de transformar a análise inicial em dissertação de mestrado, já estavam claras e decididas algumas idéias que implicavam a exclusão de alguns pressupostos respeitados no estudo da capoeiragem. Foram os casos, por exemplo, da análise da figura do capoeira, individualizado, “valentão” dissociado do contexto social, bem como da consideração da capoeiragem como prática negra entendida exclusivamente como manifestação de resistência, sem que se busque,
pelo menos, as especificidades desta resistência sob o ponto de vista histórico.

Luís Sérgio Dias

Ricardo Nascimento

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