MESTRE JOÃO GRANDE Publicada originalmente na jornal “A Tarde”, em 3 de julho de 1988 A Tarde: Por que o nome João Grande? Mestre...
MESTRE JOÃO GRANDE
Publicada originalmente na jornal “A Tarde”, em 3 de julho de 1988
A Tarde: Por que o nome João Grande?
Mestre João Grande: Na academia do mestre Pastinha tinha dois Joãos: um pequeno eum grande. Um menor e um maior. O outro é pequeno mesmo.
AT: Onde o senhor nasceu?
MJG: Nasci no interior da Bahia, em Itagi, próximo de Jequié. Tenho 55 anos.
AT: Como o senhor velo parar na academia do mestre Pastinha?
MJG: No ano de 1953, quando eu já estava em Salvador e tinha 20 anos, passei numa roda de capoeira na Curva Grande, onde fica o Nina Rodrigues. Ali tinha capoeira todos os domingos. Eu que morava no Tororó, comecei a ir lá todos os domingos. Gostei da brincadeira. Então, perguntei a João Pequeno, que eu conhecia, onde ele aprendia capoeira. Ele me falou do Mestre Pastinha, que tinha uma academia no Candeal Pequeno, em Brotas. Paguei 20 mil réis e entrei para a academia. De lá só saí com a morte do Mestre Pastinha, há cinco anos.
AT: E como foi sua convivência com o Mestre Pastinha?
MJG: Assim que entrei na academia, comecei a treinar diretamente com o Mestre Pastinha. Mas a academia ficou parada durante um ano, porque o dono da sala, onde ela funcionava, pediu o local por briga política. O Mestre Pastinha ficou sem academia nenhuma. Então, a gente jogava capoeira no Corta Braço, no Retiro, nas academias de Waldemar, Cobrinha Verde, Mola. Até que os Filhos de Gandhi arranjaram uma salinha para Mestre Pastinha, no Pelourinho.
AT: Capoeirista era muito perseguido naquela época?
MJG: Ninguém gostava de capoeirista. Era como o candomblé, que todo mundo queria acabar. Capoeira era para gente da pesada, estivador, carregador de caminhão. Era coisa de malandro. Mas como o tempo foi mudando, capoeira agora é ensinada nos colégios, entre policiais civis e militares, nas Forças Armadas. Isso é coisa recente, de 1970 para cá.
AT: E como a capoeira foi ganhando espaço?
MJG: Foi através do Mestre Pastinha, que divulgou a capoeira junto aos jornalistas, escreveu sobre a capoeira… Foi tirando a impressão de que a capoeira era coisa de malandro. Mostrou que era um esporte, bom para a saúde.
AT: E qual era a filosofia da capoeira ensinada pelo Pastinha?
MJG: Ele dizia sempre que capoeira tem muita malícia, mas não é violenta. Capoeira tem jogo bonito, seguro, mas não violento. Para aplicar o golpe, não precisa derrubar o camarada, bater para matar. Bastava mostrar o golpe. Na capoeira angola não existem golpes premeditados. Tudo depende do capoeirista; ali na hora podem surgir golpes nunca vistos. Um angoleiro nunca pode dizer que aprendeu tudo sobre capoeira.
AT: E por que a capoeira hoje está tão violenta?
MJG: Há muitos mestres e pouca capoeira. Antigamente não era violenta. Mas agora, os mestres não estão tão dedicados. E só pensam em dinheiro.
AT: O que é a capoeira regional?
MJG: A capoeira regional, criada pelo Mestre Bimba, está mais próxima da luta livre. É uma capoeira para turista ver. É violenta e tem aquela coisa de mudança de faixa, que nem judô e caratê. Olha, nunca vi isso de dar faixa entre os angoleiros.
AT: O que é ser um bom capoeirista?
MJG: O bom capoeirista tem de tocar bem um berimbau, pandeiro, cantar…
AT: Qual a proposta do Grupo de Capoeira Angola-Pelourinho, do qual o senhor faz parte?
MJG: Manter a linha da capoeira da Angola, seguir os ensinamentos do Mestre Pastinha e não capoeira por dinheiro. No grupo só entra quem quer mesmo aprender capoeira. Aprender a capoeira mais por devoção e não como forma de luta e agressão. Capoeira é de um ensinamento muito profundo, é uma filosofia de vida.
AT: Como é que o senhor viu a morte de China, recentemente?
MJG: Eu estou na capoeira desde 1953 e nunca vi ninguém morrer na roda. A morte foi uma perversidade. Olha, eu fui inimigo de Caiçara durante um ano e jogamos capoeira, mas nem eu peguei ele, nem ele me pegou.
AT: Se o senhor não ganha dinheiro com a capoeira, como é que sobreviveu todo esse tempo?
MJG: Eu trabalho há 22 anos em posto de gasolina, lavando carro, etc., na Barros Reis, no bairro do Retiro. Capoeira só jogava à noite e domingo à tarde. Agora que estou me aposentando, vou passar a ensinar capoeira direto…
AT: E como foi sua participação no grupo folclórico “Viva Bahia”?
MJG: Entrei para o grupo em 1970. Trabalhava jogando capoeira, maculelê, puxada de rede. Viajei a Europa toda, durante dois anos. Depois disso fui para a Moenda, na Boca do Rio, onde passei quatro anos, dando show também, mas eles exploravam demais… voltava para casa às cinco da manhã.
AT: Hoje em dia, a maioria dos mestres são professores de Educação Física. Como é que o senhor analisa isso?
MJG: Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Os mestres antigos nunca foram professores de Educação Física. Aprendi capoeira com ajudante de caminhão, carregador de caminhão, estivador, o pessoal da pesada. E por que agora mestre tem de ir para a universidade? Eles querem tirar a gente da jogada, porque eles estão interessados em ganhar dinheiro, não na capoeira. Então acham que eu, o João Pequeno, o Waldemar, morremos para a capoeira. Eu nunca fui à escola. Minha vida foi praticamente só na capoeira.
AT: Quando foi que mulher passou a freqüentar as academias de capoeira?
MJG: Foi de 1970 para cá, quando a capoeira passou a ser ensinada nos colégios. Nos anos 50, na Bahia, só uma mulher jogava capoeira, era Chicão. Aprendeu na rua mesmo. Era uma mulher que brigava com a Polícia e andava de saia. Vendia acarajé, essas coisas. Amarrava a saia entre as pernas e entrava na roda. Homem não brincava com ela, porque senão ela batia e o camarada caía mesmo. Mas capoeira hoje é para homem, menino, mulher, só não aprende quem não quer!
AT: Em qualquer idade se aprende capoeira?
MJG: A capoeira nasce com a gente, basta descobrir isso.

Ricardo Nascimento

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