EUNICE CATUNDA Todo artista que não acredita no fato de que só o povo é o eterno creador, que só dele nos pode vir...


EUNICE CATUNDA

Todo artista que não acredita no fato de que só o povo é o eterno creador, que só dele nos pode vir a fôrça e a verdadeira possibilidade de expressão artística, deveria assistir a uma capoeira baiana. Ali a fôrça criadora se evidencia, vigorosa, livre dos preconceitos mesquinhos do academismo, tendo como lei primordial e soberana a própria vida que se expressa em gestos, em música, em poesia. Ali se exprime a vida magnífica e bela, em nada prejudicada pela capacidade limitada dos instrumentos musicais primitivos, aos quais se adapta sem ser por eles diminuída.

O senso de realização coletiva, própria essência da arte, se revela no tríplice aspecto da capoeira, que é uma fusão de três artes: Música, Poesia e Coreografia.

A dança da capoeira, na Bahia, é o que jamais deixou de ser a verdadeira arte: não um divertimento, mas uma necessidade. Aliás, é esse um dos fatores a que se deve a fôrça mil vezes mais viva da arte popular quando a comparamos à música erudita: esse caráter funcional, esse aspecto de necessidade imperiosa que tem toda arte que o povo cultua. Ao passo que a música erudita soa cada vez mais falsa, se revela sempre mais um simples gozo de sibaritas, sem função, desnecessária.

Na Bahia, a arte da capoeira é atividade domingueira, tão normal e querida quanto o nosso grande esporte nacional, o futebol. E quem a exerce é, na maioria, o povo trabalhador: operários da construção civil, carregadores do mercado, gente de profissão definida, que passa a semana inteira no duro “batente”, lutando para garantir o pão de cada dia, para si e para sua família. A capoeira baiana não é como a do Rio, arte cultivada quasi que exclusivamente pelo lúmpen-proletariado, arte perseguida pela polícia de costumes como perigosa, causadora de crimes e de bebedeiras. Na Bahia ela é cultivada pelo povo sadio; é arte de gente combativa, sem nada de mórbido ou nocivo.

O ritual, a tradição a que obedecem os participantes da capoeira, são muito rígidos. O mestre é o conhecedor da tradição. Daí ser ele, também a autoridade máxima. Supervisiona o conjunto todo, determinando a música, o andamento, tirando os cantos ou indicando a pessoa que o faça. É também ele que determina o tempo de duração de cada dança, de relógio em punho[1]. Os concorrentes novatos dançam entre si. Mas quando algum bailarino se destaca, o Mestre dança com ele, apontando-o, por meio dessa distinção à atenção dos veteranos, novatos e assistência. Essa autoridade do Mestre é uma das coisas mais admiráveis e comoventes que tenho visto. O respeito a ele demonstrado pela coletividade, o carinho com que o cercam, fariam inveja a muito regente de música erudita. Prova isto que o espírito de disciplina é mais vivo no povo rude e inculto da nossa terra, quando este se organiza, que entre as camadas superiores, já mais habituadas à organização conseqüente da própria instrução e do exercício de atividades culturais e que, por isso mesmo, teriam maior obrigação de compreender a necessidade e a importância da disciplina na coletividade. Acontece porém que o Mestre nunca abusa de seus direitos. Não se atribui poderes ditatoriais. Sabe que sua autoridade emana da própria coletividade e comporta-se como parte integrante desta. Belo exemplo de modéstia observei também no terreiro baiano mas que já observara, anos atrás, no litoral de São Paulo numa colônia de pescadores distante 3 quilômetros da vila de Ubatuba, por ocasião de uma “dança de S. Gonçalo” que ali se realizava. Nesta, a mestra era uma velhinha de setenta anos, severa e incansável. Mas a “dança de S. Gonçalo” ficará para outro artigo.

O terreiro de mestre Waldemar localiza-se no célebre bairro proletário da Liberdade[2]. Bairro de grande densidade de população, sem pretensões, esquecido da Prefeitura que se preocupa em embelezar e cuidar só daqueles trechos da Cidade do Salvador que se encontram à vista do turista. Quanto ao bairro da Liberdade, não é para “gringo” ver. Como todo bairro operário, não tem calçamento, é cheio de valas onde, em tempo de chuva, as águas apodrecem envoltas em nuvens de mosquitos; seus incontáveis casebres mal se têm de pé, e se o fazem é por pura teimosia. Abundam as vendolas onde se compra desde a jabá até a caninha. É um bairro repleto de vida e de movimento, corajoso e revoltado. Nesse domingo de sol, os caminhos da Liberdade, onde Alina Paim conheceu a fome e a miséria da infância baiana abandonada, de quem ela se aproximou e que muito contribuiu para levá-la a colocar a sua arte a serviço do povo[3], estavam até bonitos. As cores vivas da Bahia continuavam nos vestidos domingueiros das jovens do povo. A claridade risonha do dia se refletia nos rostos mais repousados dos trabalhadores e nos alvos sorrisos dos pretinhos moleques de cara lavada pelo banho semanal, tão dificil pela precariedade das instalações sanitárias, praticamente inexiste…

Quando chegamos ao terreiro a capoeira já começara. Dois dançarinos coleavam rentes ao chão, enquanto dois birimbáus e três pandeiros acompanhavam com estranhos ritmos e sons aquela dança magnífica e arrebatadora, de gente combativa e forte. Os dançarinos do momento eram um carregador do mercado de Água de Meninos e um operário da Construção Civil. O operário estava todo de branco, sapatos brilhando, camisa alvejando. Era um dos melhores dançarinos. É costume da fina-flôr dos capoeiristas o dançar assim, “de ponto em branco” como se costuma dizer, para demonstrar sua perícia. Chegam ao cúmulo da dançar de chapéu e os bailarinos hábeis se gabam de sair da dança sem uma só mancha de terra na roupa, limpos e bem arrumados como se ainda não houvessem entrado em função.

A roda de espectadores, gente do bairro, gente amiga da qual os únicos estranhos éramos Maria Rosa Oliver e eu, em breve estava eletrizada pela dança. Só tomávamos conhecimento do tempo nos breves intervalos entre uma dança e a seguinte; e assim mesmo para achar que demorava muito a continuação…[4]

A dança de capoeira é a representação simbólica de antigas lutas autênticas. Na Capoeira de Angola, os dançarinos volteiam quase rentes ao chão, realizando paradas de braço, em posição horizontal, girando, escorregando como enguias e escapulindo por sob o corpo do adversário. Os golpes são constatados por mesuras e pelas exclamações dos assistentes. Aliás, não fóra a precisão daqueles movimentos, muitos dos golpes seriam mortais. Esse é o caso das célebres cabeçadas assestadas contra o peito e cujo impulso é sustado só no derradeiríssimo momento, quando a cabeça [p. 17] de um dos bailarinos já aflorou o corpo do outro. A violência latente nunca se desencadeia e esse extraordinário domínio de paixões mantêm a assistência numa incrível tensão de nervos, empolgando a todos numa espécie de hipnotismo coletivo quase indescritível. Só aqueles que assistiram a uma demonstração de Capoeira de Angola poderão compreender a monstruosa fôrça e contrôle exigidos para que se realize cada um daqueles movimentos, sem que se dê lugar a qualquer agressão, sem que se perca a elegância e a graça felina de cada gesto, absolutamente medido, calculado por uma espécie de instinto, já que os elementos atuantes se acham inteiramente entregues àquela arte aparentemente tão impulsiva e espontânea.

Outra caraterística que ressalta na capoeira baiana é o fato de ambos os dançarinos, ou o grupo completo, pois às vezes há vários de dois a dois, atuarem com a mesma intensidade. Não é como a capoeira carioca, na qual um dos comparsas se matém imóvel, em atitude de defesa, enquanto só o outro ataca, dançando em volta do inimigo, assestando-lhe golpe sobre golpe[5]. Na capoeira de angola nenhum dos dois permanece parado. Pelo contrário, movimentam-se como fusos, como lançadeiras! E o espírito de alegria está sempre presente. Apesar da violência latente, não sobrevém a hostilidade. Há no meio daquilo tudo imensa fraternidade e júbilo. Verificam-se passes espirituosos de bailarinos brincalhões e sorridentes, a realizar difíceis e perigosíssimos passos e golpes. E entre os assistentes estouram sonoras risadas… Jamais vi, em danças de conjunto, nacionais ou estrangeiras, tão arrebatadora beleza, aliada a tal rapidez, precisão e fôrça reprimida, dominada por uma inteira disciplina e lucidez.

Tivemos ocasião de admirar um menino de sete anos que dançou com o próprio mestre Waldemar, de quem é aluno, e com aquele operário exímio de quem já falei. Não se pode imaginar quanto era comovente acompanhar a frágil figurinha infantil, hábil, compenetrada, a competir com o homem mais velho, em cujo rosto se iluminava um sorriso afetuoso, porém nada complacente. Concentrado, o menino aplicava cabeçadas e rasteiras, escapulindo matreira e agilmente das rasteiras e cabeçadas do mestre, cônscio de sua dignidade de futuro capoeirista, de futuro artista popular, imperturbável, sob os olhares e exclamações dos espectadores.

Texto completo : http://www.capoeira-palmares.fr/histor/catund52.htm

Ricardo Nascimento

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