Penso ter sido Pierre Verger um dos primeiros a fotografar a capoeira em larga escala. O antropólogo francês que era fotógrafo profissional e iniciado...

Penso ter sido Pierre Verger um dos primeiros a fotografar a capoeira em larga escala. O antropólogo francês que era fotógrafo
Batuque3klprofissional e iniciado nas religiões afro-brasileiras deixou-nos um vasto espólio de fotografias sobre a cultura da diáspora negra no Brasil em que se incluem, belas fotos sobre a capoeira. Nas suas fotografias, sempre em preto e branco, os negros aparecem a jogar em vários locais, na rua, no cais, nas festas e alguns delas em locais míticos como o barracão do Mestre Valdemar.

Entretanto a iconografia da capoeira é bem mais antiga e envolve outras técnicas como a pintura a gravura e o desenho. Datam de 1885 as gravuras do alemão Yohann Moritiz  Rugendas que parecessem retratar os negros a jogar a capoeira. Famosas ainda são as gravuras de Carybé, muitas delas presentes nos livros de Nestor capoeira e Waldeloir Rego, o Ensaio etnográfico da capoeira Angola.

Com o desenvolvimento tecnológico e a globalização a mesma iconografia ganhou outros contornos através da fotografia e do cinema e a dispersão dessas mesmas imagens pelo mundo. Uma pequena busca na web por fotografias de capoeira e vamos encontrar um número surpreendente de imagens, feitas em todo mundo e por diversos profissionais. Algumas dessas imagens viraram verdadeiros ícones e são utilizadas em cartazes, camisas, logos de grupos, livros e uma infinidade de fins promocionais.

Um das fotografias mais vistas em todo mundo e amplamente divulgada na web foi tirada na Holanda pelo grupo Batuque capoeira do Mestre Vladimir Frama. A foto foi feita no ano 2000 e tem como protagonistas o Mestre Vladimir e seu aluno Sunil Indiano. De autoria do fotógrafo Ronald Stmets, sobre direção do Mestre Vladimir a foto foi realizada em Den Haag no porto de Scheveningem na Holanda , para uma reportagem na revista ‘Body and mind’ sobre o grupo ‘Batuque capoeira Holland’.

Segundo o mestre, entre as cerca de duzentas fotos selecionaram-se quatro , utilizadas posteriormente em materiais de divulgação do grupo. A foto foi parar nas mais diferentes partes do mundo e ele mesmo recebeu, por e-mail, inúmeros pedidos de uso. Quando falamos sobre o assunto, o mestre mostrou satisfação e contentamento pelo fato da foto ter ultrapassado fronteiras e disse não se importar que seja utilizada por capoeiristas, que vivem da capoeira. Entretanto, qualquer uso que seja para além da capoeira, tendo fins comerciais que possam envolver empresas e campanhas publicitárias, não será por ele autorizado.

A imagem de que falamos retrata dois capoeirista, a céu aberto, executando um movimento de capoeira em que um faz um martelo e outro uma esquiva e uma rasteira bastante estilizada. A perspectiva da imagem permite capturar em ângulo completo os corpos dos dois atletas, bem como uma paisagem adjacente em que chama a atenção a mistura entre o azul e o branco do céu. A extensão da foto, a perspetiva angular ampla e o contraste entre luz e sombra faz parecer que, o movimento executado pelos capoeiristas se estende pelo céu e pela terra, postos como fundo. Os rostos estão semi cobertos pelas sombras e partes da musculatura contrasta com o branco das nuvens. Também se pode observar o detalhe do encaixe de partes do corpo na composição da foto, como o pé de baixo que executa a rasteira, as mãos estendidas para o ar e o martelo bastante alongado. As demais fotos da sessão encontram se disponíveis no site do grupo.

A capoeira começou na Holanda nos anos oitenta e possui um dos encontros mais antigos da Europa. Hoje ela se encontra difundida em quase todos as cidades do país como demonstra o trabalho do Mestre Vladimir. Depois de dezoito anos de trabalho árduo na Holanda o grupo Batuque capoeira está presente em catorze cidades, formou dois professores e oito instrutores, todos holandeses iniciados pelo grupo. Mestre Vladimir é oriundo do estado do Ceará e reside na Holanda desde anos noventa, viajando e ensinando a capoeira. A foto, bem como o crescimento do grupo batuque capoeira, são exemplos de como tem caminhado a capoeira nos últimos tempos, levadas pelo intenso processo tecnológico desencadeado pela globalização. Apesar do desprendimento necessário que se deve ter com o crescimento da capoeira e dos seus símbolos, é bom saber que no mais recôndito espaço do mundo, pode estar alguém a quem a capoeira ainda faz a cabeça produzindo, sonhos, imagens e encantamentos.

Ricardo Nascimento

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