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O Rio de Janeiro continua lindo: visões do espaço urbano na roda do cais do Valongo
Uma visão do paraíso tropical A cidade do Rio de janeiro sempre foi o cartão postal do Brasil. Uma parte significativa dos símbolos de...

Uma visão do paraíso tropical

A cidade do Rio de janeiro sempre foi o cartão postal do Brasil. Uma parte significativa dos símbolos de brasilidade que hoje fazem parte do imaginário dos brasileiros e circulam nos circuitos de signos globais de consumo, vem do Rio. O carnaval carioca, o samba, o corcovado, o futebol, todos participam num pacote de signos que alimentam a indústria do entretenimento e lazer na sua dimensão internacional.

Hermano Viana, no livro O Mistério do samba, destaca um encontro histórico, ocorrido no Rio em meados do início do século XX, entre figuras importantes da cultura brasileira. Neste encontro, aparentemente casual, o sociólogo Gilberto Freyre em visita a cidade, daria uma saída para bebericar um gole de cachaça e ouvir música com o também cientista social Sérgio Buarque de Holanda, o jornalista Pedro Dantas, o compositor Villa Lobos, o compositor Luciano Gallet e Patrício, Donga e Pixinguinha, figuras eminentes da criação do samba carioca. Segundo Hermano esse encontro entre intelectuais das ciências Sociais e da cultura com génios da música popular serviria de alegoria para exemplificar a “invenção do samba”, no Rio, como símbolo de brasilidade e por que não dizer mesmo destacar o Rio no âmbito da produção da “brasilidade” no contexto nacional.

Dois outros símbolos importantes foram responsáveis pela exotização do Rio e pela exportação das suas características como símbolos de brasilidade: Cármen Miranda e o personagem  Zé Carioca do Walt Disney. Apesar de ter nascido em Portugal e utilizar, nas suas paramentas, adereços das baianas, Cármen viveu no Rio e retratava nos cenários dos seus shows e filmes paisagens da cena musical carioca. O personagem Zé Carioca foi criado na década de 40, seguindo a “política de boa vizinhança” dos Estados Unidos e acredita-se que teria sido desenhado pelo próprio Walt Disney, no Rio de Janeiro, como forma de homenagear a cidade maravilhosa.

Do império a república: rasgando o espaço urbano carioca.

Tendo sido a segunda capital brasileira depois de Salvador, no Rio de Janeiro aconteceram  fatos importantes que destacaram a cidade no contexto histórico nacional. As contingências históricas e culturais que constituíram a biografia da cidade deixaram, ao longo dos anos, sulcos profundos na paisagem urbana. Do ponto de vista urbano a cidade esteve sempre marcada por divisões sócio-espaciais entre a elite branca e uma vasta população de negros e mestiços que tendo ocupado inicialmente a malha urbana de casebres e cortiços, subiu os morros e veio a dar origem as favelas, áreas de risco de elevado declive e insegurança.

No início do século XIX a chegada da família real portuguesa provocou mudanças profundas na cidade que, em termos demográficos recebeu um grande contingente de patrícios lusos, fugidos do velho continente durante as guerras napoleónicas. A cidade do Rio de janeiro foi ainda palco de importantes acontecimentos políticos como a independência do Brasil, sediou os dois únicos reinados, foi onde deu-se o fim da monarquia e início da república, para além de ter sido o local onde foi assinado o decreto que acabou com a escravidão. De uma forma ou de outras todos estes acontecimentos políticos afetaram a geografia urbana do Rio, criando retalhos, fragmentando o espaço urbano e facilitando a segregação social e espacial dos grupos mais desfavorecidos.

Carlos Eugénio Líbano descreve, no livro A capoeira Escrava, as maltas de capoeiras como grupos organizados de negros e mestiços que ocupavam a cidade do Rio com a prática da capoeiragem. Acredita-se que as maltas tenham sido extintas por força da repressão policial desencadeada por Sampaio Ferraz chefe da polícia carioca, também ele praticante da capoeiragem, mas também pelas políticas de “higienização” e remodelação urbana levadas a cabo no rio no início do século XX. Por esta altura ocorria no Rio de Janeira a Revolta da Vacina, luta popular contra a lei de vacinação obrigatória contra a varíola. Na verdade a vacinação obrigatória constituía uma forma de intervenção estatal contra as populações mais carentes, compreendidas como uma “doença” a exterminar no meio urbano. Nas primeiras décadas do século XX o prefeito Pereira Passos levou adiante profundas mudanças no espaço urbano da cidade do Rio, afim de moderniza-la aos padrões do convívio “civilizado ocidental” o que levou muito dos seus habitantes e dividir-se em duas áreas: os mais carenciados para formar as favelas nos morros e os mais abastados aos bairros de Ipanema, Copacabana e Zona Sul.

Reinventar o Rio no contexto global

A história tem passagens cíclicas e não espanta que, de tempos em tempos, sejam reeditadas políticas e formas de intervenção social e urbanas utilizadas no passado e adaptadas a contemporaneidade. Por ocasião de dois grandes eventos de envergadura mundial o Rio de Janeiro tem sido novamente alvo de políticas urbanas que marcam mudanças territoriais profundas, novas formas de higienismo, semelhantes ao passado, mas com a subtileza que prende-se aos tempos atuais. Falamos das intervenções relacionadas com Copa do Mundo de 2014 e o Rio 2016, os jogos olímpicos e paraolímpicos, que tem o Rio como espaço central de acolhimento e gestão. Trata-se de quantias astronómicas que visam repor o Rio de Janeiro no mapa do turismo mundial e tomando de arrasto a crise económica global e o bom momento financeiro e político que o Brasil vive na atual conjuntura. Apesar da “nobre” proposta de alavancamento económico, ela esconde subtilezas que tem sido denunciadas por sectores dos movimentos sociais e culturais que merecem relevo.

Pensar a cidade na roda do Cais do Valongo

O cais do Valongo situa-se na zona portuária do Rio de Janeiro e desde sempre manteve uma relação com a cultura afro-brasileira, seja pelo fato de ter sido um entreposto de escravos no Rio ou por ter sido frequentada por capoeiristas, babalorixás e yalorixás, sambistas e outros personagens da cultura popular carioca. O cais do Valongo ele próprio sofreu alterações urbanas ao longo do tempo, como em 1893 quando foi alargado para receber a imperatriz que casaria com D.Pedro II e chamado de Cais da Imperatriz.

A roda do Cais de Valongo foi idealizada por Carlo Alexandre Teixeira da Silva, conhecido na capoeiragem como Mestre Carlão. O Mestre começou o seu trajeto na capoeira Angola nos anos 80 e fez parte de uma geração de capoeiristas no Rio que participou na revitalização da capoeira Angola, mas também, na sua difusão para fora do Brasil. Mestre Carlão residiu em Londres, idealizou alguns espetáculos de teatro com performatizações híbridas entre o teatro e a Capoeira Angola, mas também organizou um dos mais importantes eventos da capoeira londrina, o Movement for change.

De retorno ao Brasil para residir novamente no Rio, consta que Mestre Carlão foi dar aulas próximo ao Cais do Valongo e deu se conta da importância do lugar e da necessidade de criar a volta daquele espaço simbólico um movimento. As rodas do Cais do Valongo têm um carácter temático, tendo sido a primeira dedicada a Prata Preta, líder negro contra a revolta da vacina. A roda também é frequentada e conta com a intervenção de personalidades importantes que pensam a capoeira, a cultura negra e a cidade do Rio como o jornalista Décio Teobaldo e o historiador Mathias Assunção. A ideia central da roda, na compressão do Mestre Carlão, é “ocupar os espaços públicos e históricos para fincar o pé nos locais que estão cada vez mais controlados”. Segundo o mestre existe um “choque de ordem” na ocupação dos espaços públicos em que os gestores municipais criaram regras estritas de utilização que limitam a ação dos agentes da cultura popular na rua. Na perspetiva do Mestre Carlão e de outros agitadores culturais da capoeira carioca, a área do Cais do Valongo tem sido muito visada pela especulação e os investidores, seja por seu carácter histórico e o valor do solo urbano, mas sobretudo pelos avultados investimentos que ali se pretendem fazer. Para além da roda, outros grupos tem feito na praça as suas intervenções como grupos de Jongo, o bloco carnavalesco Prata Preta e inclusive grupos indígenas.

É importante perceber que essa intervenção dos capoeiristas em parte tem um carácter de reforço cultural da atividade, ocupando e intervindo nos espaços público, fazendo notar-se como uma atividade que é popular e que esta em diálogo com os grupos sociais que ocupam a urbe carioca. Mas tem também e principalmente um carácter político e militante em favor da cidade, do direito de manifestar-se nela através da cultura e opondo-se a qualquer forma de elistismo e segregação socio-espacial que os poderes públicos pensem em instituir. Perceba-se também que a roda do Cais do Valongo trás uma proposta de ação para a capoeira Angola no Rio de janeiro. Para além da roda em si, há um tema, ocorrem palestras e podem eventualmente ocorrer intervenções de outras ordens, dentro do contexto de organização da roda. No decorrer dessa proposta outos líderes de grupos também dinamizaram as suas rodas na rua, construindo um movimento espontâneo, mas que vibrava a partir de um sentimento comum de intervir na cidade e engajar a Capoeira Angola numa ação conjunta e assim criou-se a Conexão Carioca de Rodas na Rua, como uma iniciativa dos capoeiritas de integrar as rodas já existentes na rua num mesmo fim. Os grupos envolvidos nessa iniciativa são: Grupo Volta ao Mundo – M. Cláudio (Roda na Praça São Salvador, Laranjeiras); Grupo Kabula Rio – M. Carlão, CM. Leandro, Treinel Fátima (Roda do Cais do  Valongo); Grupo Ypiranga de Pastinha – M. Manoel (Roda na Cinelândia, Centro);  Grupo Aluandê – C.M Célio (Roda da Feira do Lavradio, Rua do Lavradio);  Grupo Valongo – Treinel Maicol e Pedro Rolo e  Roda da Praça XV com Prof. Fábio-Pezão do Instituto Uka – Casa dos Saberes Ancestrais.

A roda do cais do Valongo está para continuar. Para além do ritual da capoeira angola e da mandinga e teatralidade dos seus jogadores, a roda do Cais do
Valongo é um casamento de várias intervenções artísticas. Já foram produzidos vídeos, realizadas palestras, experimentações fotográficas em que se destaca o trabalho da fotógrafa Maria Puppim Buzanovsky e estão marcadas outras intervenções. O Rio pulsa e reflete sobe si mesmo na roda do Cais do Valongo.


Ricardo Nascimento

Geógrafo

Doutorando em Antropologia pela Universidade Nova de Lisboa

Fotografia : Maria Puppim Buzanovsky

 

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