Por que ela atrai cada vez mais adeptos no mundo? Está para surgir um país onde a capoeira não faça sucesso. Praticada em toda...

Por que ela atrai cada vez mais adeptos no mundo?

Está para surgir um país onde a capoeira não faça sucesso. Praticada em toda a Europa, nos Estados Unidos e em lugares tão diferentes quanto Indonésia, Israel, México e Japão, a luta ritmada tipicamente brasileira parece capaz de superar qualquer barreira cultural, conquistando adeptos apaixonados. Como explicar esse fenômeno de globalização?

A RHBN convida capoeiristas para este debate. Afinal, por que a capoeira desperta tanto fascínio?

Benjamin Lestage, capoeirista, França

Benjamin LestageBenjamin Lestage

“Ao treinar pela primeira vez, o que mais me chamou a atenção foram os movimentos dos outros capoeiras. Aú, bananeira, rabo de arraia, meia-lua e tantos outros que para mim não correspondiam a nada do que tinha visto antes. Não conseguia definir essa mistura: canto, ritmo, branco/negro, homem/mulher, movimentos, defesa, ataque, malandragem, cultura, teatro, enfim, um conjunto de coisas.

A roda de capoeira seduz muito, pelos músicos e jogadores sentados em círculo, os instrumentos, todo mundo cantando bem alto. A energia que sai desse conjunto é forte. Isso surpreende e atrai muitas pessoas na França e no mundo inteiro.

Existem muitos estereótipos exóticos sobre a capoeira que também atraem, como a imagem de um mulato descalço na praia dando saltos mortais à sombra de um coqueiro. Para algumas francesas, a idéia de ter um corpo bonito digno das praias brasileiras também é um atrativo para a prática do esporte.

Acredito que a capoeira seja uma porta de entrada para a cultura brasileira e afro-brasileira. Esta arte nos seduz porque nos dá a oportunidade de conhecer uma cultura diferente, e que de certa forma se assemelha à cultura francesa, por sua riqueza, passado de luta e resistência, cuja história não pode ser esquecida pelas futuras gerações.”

Márcio Lopes – Graduado Beleza (Angolano)

Sou Angolano e dou aulas na África do Sul. Comecei a jogar Capoeira imitando os movimentos que meu primo aprendia nas aulas de um grupo brasileiro.  Acho que a Capoeira atrai por seus movimentos acrobáticos, pelas cantigas, pelo ritual e por sua cultura. Além desses aspectos esse esporte também é uma forma interessante de se exercitar o corpo, diferente da monotonia de correr ou se exercitar em um ginásio (academia).

Cláudio Nascimento, Mestre Chaminé, Brasil

“Pratico capoeira há mais de 40 anos e sou professor há 17. Já trabalhei em países como Holanda, França, Suíça, Escócia e Inglaterra.

A capoeira atrai os alunos estrangeiros pela beleza dos movimentos, pela música, o canto, os instrumentos, por sua parte de luta, mas também teatral. Eles não possuem a “ginga brasileira”, mas são extremamente dedicados e disciplinados. As escolas de capoeira no exterior representam o exótico, o diferente.

Em uma sociedade individualista como a que vivemos, a capoeira oferece encontro, socialização, e acho que este seja um grande atrativo também: mais do que perder ou ganhar, o importante é interagir, aprender novos movimentos e desenvolver os seus próprios.

É pena que, ao contrário da boa recepção que recebe no exterior, a capoeira ainda sofra com a falta de reconhecimento aqui no Brasil.”

Pedro Daddario – Galho – brasileiro residente nos EUA

“Comecei a praticar capoeira nos Estados Unidos, e antes disto nunca tive nenhum contato com a dança. Tudo que sei sobre a luta, aprendi aqui. A maneira como o americano vê a capoeira está diretamente relacionada com forma como ela é apresentada. A grande maioria dos americanos é atraída pela “versão propaganda” da capoeira, pela promessa do exótico. O americano é sedento por cultura, pois sente que perdeu suas raízes, e busca preencher essa lacuna aprendendo sobre outras culturas.

Existem muitos fatores que facilitam o ingresso na capoeira: a informalidade, o fácil acesso e a forma livre dos movimentos. Ela exige pré-requisitos físicos mínimos, as cantigas tradicionais e os toques da capoeira são simples, os golpes principais são fáceis de aprender.

Há também uma preocupação com os iniciantes. Por exemplo: se um estranho perna-de-pau, pede pra entrar num jogo de futebol, a chance de alguém botar a bola no pé dele pra marcar o gol – ou melhor, pra errar o gol – é zero! Já na capoeira, o iniciante é incentivado a cantar, jogar, tocar, ainda que estrague a roda toda.

O pessoal se diverte vendo o outro se embananar, e se alegra de ver o esforço do outro. Por fim, a capoeira é de uma sinceridade rara; tudo de bom e ruim transparece no jogo de uma forma sutil. E da mesma forma, quando a roda é boa, a alegria do capoeirista, o prazer do cantador fica estampado na cara.”

Ryuta(Lyuta) Suda, professor de capoeira, Japão

Acho que uma das características do povo japonês é o medo de arriscar em coisas novas, diferentes. Esse temor ocorre pelo grande receio de errar. Há sempre uma tendência a fazer sempre aquilo que é costume, tradição, e isso torna as pessoas muito semelhantes. No esporte não é diferente. No futebol, por exemplo, os jogadores japoneses não arriscam muito chutar para o gol, porque têm medo de não marcar.

A capoeira para os japoneses é a possibilidade de liberdade, de ser diferente e de poder errar. No karatê, por exemplo, as regras são muito rigorosas, pois todos têm que fazer apenas de uma tal maneira, os golpes devem ser precisos, não se pode recuar, deve-se sempre atacar. Isso não acontece com a capoeira, pois desde sua origem libertava a mente dos horrores da escravidão e hoje, apesar de estarmos em outra situação, essa dança nos ajuda a nos sentirmos mais livres.

Pratico capoeira há mais de 11 anos e como professor percebo que as crianças que praticam capoeira são diferentes, pois podem se sentir livres dentro da roda, não precisam ser iguais às outras e serem olhadas de maneira estranha. Cada um pode ser o que realmente é, e isso eles levam para a vida.”

Sérgio Augusto do Sacramento, Mestre Garrincha, Brasil 

“Faço capoeira desde criança e atuo em vários núcleos na Europa. Percebo que uma coisa que fascina muitos os europeus é a idéia de que vivemos em uma democracia cultural, racial e social. Sendo assim, a capoeira representa uma atividade cultural de raízes africanas que propõe uma integração.

Os europeus, em geral, são muito distantes, não há um contato direto entre as pessoas. Na dança, há uma aproximação física maior e isso é muito instigante. A magia das rodas de capoeira, que mesclam dança, luta, acrobacia, jogo e ainda cantos e instrumentos, realmente encanta.

Além disso, essa atividade atrai enquanto trabalho físico mesmo, que bem dirigido faz bem para a saúde e para a mente. É mais que uma terapia. Além disso, através da capoeira eles podem descobrir o Brasil, aprender nossa língua e nossa cultura.”

Fonte: revista de História / Biblioteca nacional

Ricardo Nascimento

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